VIVER ENFERMAGEM EM CUIDADOS INTENSIVOS

domingo, 11 de outubro de 2015

CONSIDERAÇÕES RELATIVAS À FAMÍLIA



Considerações relativas aos familiares de utentes internados em UCI 


A família é de facto a unidade básica da nossa sociedade, é a instituição social com efeito mais marcante sobre todos os seus membros. Numa perspectiva sistémica, a família é muito mais que a soma das partes, todos os acontecimentos que afectam um dos seus membros afectarão sem dúvida os restantes e o funcionamento da mesma. Em situação de doença, a família terá que ser considerada no tratamento e recuperação do familiar doente, também ela necessita de cuidados para que o sistema familiar melhor possa recuperar seja qual for o desfecho do familiar afectado pela doença. O papel da família é fundamental durante as diversas fases dos cuidados de saúde dos seus membros, ela poderá ser um importante aliado para a prevenção, tratamento e
reabilitação.

Na bibliografia consultada, as intervenções dirigidas aos familiares dos doentes em tratamento numa UCI privilegiam de um modo geral, a comunicação, o estabelecer da relação interpessoal terapêutica e a informação como estratégias que auxiliam no
estabelecer do coping familiar. No estudo realizado por Silveira et al (2005), o estabelecer de uma relação interpessoal com a família será o primeiro passo e para isso o enfermeiro terá que ser um bom observador. Esta relação deve ser estabelecida tão precocemente possível, dando-se a oportunidade de dialogar e esclarecimento de dúvidas. Num primeiro momento a família estará mais fragilizada dada a possibilidade e risco de morte, vive luto antecipado e o enfermeiro terá de considerar este aspecto quando acolhe a mesma, terá de estar atento a emoções e sentimentos e permitir a sua livre expressão. Esta autora entende que a humanização dos cuidados passará também pela presença dos familiares junto do doente. O profissional médico ou enfermeiro terá que transmitir informação e disponibilizar-se, acompanhar e apoiar, ele terá que se
comprometer emocionalmente (capacidade para transcender-se a si mesmo e interessar-se por outra pessoa, sem que este interesse o prejudique). Os cuidados devem ser centrados no indivíduo e não na doença. A família deve ser vista como o indivíduo, ela também tem de ser respeitada e cuidada, e os mesmos cuidados emocionais, sociais e espirituais que prestam ao doente terão de prestar aos familiares. Segundo a autora, os profissionais que exercem nestes contextos precisam de arranjar espaço para discutir estas situações e integrar o assunto “família” nas suas formações.


Para Johansson et al (2006), é importante que se conheçam o estilo de coping familiar para intervenções mais adequadas. Estes autores desenvolveram um estudo no qual identificam seis estilos de coping, três estilos ineficazes e relacionados com o baixo suporte social ( reoccupying – estilo preocupado – questiona muito, stressado, sofre muito e tem dificuldade em entender as informações); Sacrificing – estilo sacrificado – vivem um permanente conflito consigo próprios, ficar com o familiar ou preocupar-se consigo próprio, sofrem muito e sentem-se culpados pelas opções); Acquiescing – estilo consentido – fragilizados que acabam por aceitar a situação, estão presentes pela pressão social) e três estilos de coping eficaz e que estão relacionados com um forte suporte social (Volunteering – estilo voluntário – oferecem-se de livre vontade para estar sempre presentes mas quando se apercebem do que isso vai implicar vacilam um pouco); Alleviting – estilo aliviado – cultivam a esperança, bons comunicadores, desenvolvem boas relações com a equipa); Mastering – estilo mestre – dominam a situação, self-control, capazes de gerir o stress, as dificuldades, habitualmente já passaram por uma situação parecida e aprenderam com a situação, são experientes neste tipo de situações). Para este autor a intervenção individual e em grupo poderá ser benéfica, juntando no mesmo espaço pessoas com diferentes estilos de coping, umas poderão levar as outras a enfrentar um problema que têm em comum. 
O estudo realizado por Mackenzie et al (1999), explorou as necessidades verbalizadas pelos familiares de doentes internados em UCI para a partir daí definir intervenções na família. Estas autoras entendem que estas intervenções devem de ser planeadas desde o momento inicial e de acordo com o que o enfermeiro percepciona em relação às suas necessidades. Este estudo concluiu que as necessidades percepcionadas podem ser a três níveis: cognitivas, emocionais e físicas e que implicam as seguintes
intervenções na família:
  • Criação/utilização de um instrumento de medida validado para apurar necessidades da família e consequente planeamento de cuidados; 
  • Criação/utilização de um instrumento de medida validado para apurar a satisfação dos familiares com a qualidade do atendimento; 
  • Apoio psicológico desde o momento inicial. É importante um bom acolhimento no primeiro momento, poderá traduzir-se em confiança na equipa e no estabelecer de uma boa relação;  
  • Informação e educação acerca dos processos de doença. Intervenção psicoeducativa; 
  • Envolvimento da família no plano de cuidados; 
  • Atitude positiva por parte dos enfermeiros pode traduzir-se em esperança para os familiares;
  • Flexibilização dos períodos de visitas, permitir a sua visita por mais tempo e convidar a participar nos cuidados
Na mesma linha de pensamento e explorando as necessidades dos familiares de  utentes internados em UCI, num estudo recente, Maruiti (2006), define as seguintes  intervenções junto da família como prioritárias:
  • investir na informação fidedigna, clara e objectiva diminuindo desta forma a insegurança e angústia e aumentando a confiança na equipa; 
  • o enfermeiro deverá saber actuar sobre o coping da família identificando o seu estilo habitual, reforçando-o de forma positiva e fortalecendo assim emocionalmente a família; 

Dando ênfase aos processos de comunicação nas intervenções dos enfermeiros  na família em UCI, Santos (2005), conclui no estudo por si efectuado que os  enfermeiros reconhecem que há uma série de factores que dificultam a comunicação  com a família, tais como: nem sempre são compreendidos pelos familiares; a gravidade  da situação; a dinâmica de funcionamento da unidade que ainda coloca muitas barreiras  à presença de família junto do seu familiar internado; o grau de desconhecimento do 
profissional acerca da evolução clínica do doente; o não ser capaz de identificar o modo de funcionamento daquela família. Todos estes obstáculos levam a que alguns enfermeiros se afastem das famílias, evitando-as na hora das visitas ou dando informações superficiais que deixam a família com a mesma dúvida que tinha e mais stressada ainda porque não foi tida em conta. Deste modo a autora sugere que os enfermeiros possam ter formação e treino na área da comunicação, na área da transmissão de notícias de modo a permitir uma melhor assistência à família como núcleo que também necessita de cuidados.

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