VIVER ENFERMAGEM EM CUIDADOS INTENSIVOS

domingo, 7 de fevereiro de 2016

O SÍNDROME DOS CUIDADOS INTENSIVOS - PORQUÊ? ...UM RELATO... UM TESTEMUNHO...

As intervenções dirigidas ao utente da UCI, para além de todas aquelas resultantes da prestação directa de cuidados mais ou menos técnicos característicos deste tipo de serviço, estão ligadas a um fenómeno estudado pela primeira vez na década de 1950-1960, e que Hewitt, J. (2001) descreve na sua Revisão da literatura, como o Síndrome dos Cuidados Intensivos, que na realidade traduz-se por distúrbios psicoafectivos com alterações no humor (a possibilidade de surgirem quadros depressivos) e/ou sintomatologia psicótica.

Segundo esta mesma autora, todo este quadro pode ser resultante de múltiplos factores: o medo sentido por estes doentes, a situação de elevada dependência a que estão sujeitos, elevados níveis de ansiedade, cuidados pouco humanizados, perturbações do sono, o ambiente que envolve uma unidade de tratamento crítico (a iluminação e os ruídos), a falta de noite e dia, as dificuldades sentidas na comunicação verbal provocadas pela presença do tubo orotraqueal o que causa insegurança, despersonalização e sentimentos de frustração (Clarke, 1985; Bergbom- Engberg & Haljamae, 1988; Todres et al., 2000). Um outro factor considerado por esta autora será o uso de determinado tipo de drogas com propriedades alucinogénicas, por exemplo, Midazolan e OUTRAS Benzodiazepinas podem induzir alucinações sexuais (Dundee et al, 1991).

Ao longo do meu exercício profissional já presenciei vários exemplos deste síndrome que muitas vezes é a porta para desenvolver Stress Pós Traumático.

RELATO DE UM TESTEMUNHO
Alguns dos doentes internados em UCI sentem necessidade de, passados alguns dias, semanas ou meses de voltar à unidade e pedem com alguma frequência para visitar a Box onde estiveram instalados. É interessante ver as reacções e alguns dos relatos que são de uma riqueza ... fantástica...
...deixo-vos um exemplo de um utente que esteve hà aguns anos na UCI e que passados 6 meses pós alta hospitalar bate-me à porta e pede para visitar o serviço... Não o reconheci logo porque fora de uma cama, fora os tubos, os nossos doentes e todos nós ficamos bem diferentes... Quando o reconheci, logo o acolhi e felicitei pela sua vitória... Conversamos sobre a sua situação, pediu para ir à box onde esteve e lá fomos...
... Quando lá chegou emocionou-se, os seus olhos ficaram rasos de lágrimas e começou a descrever a forma como tinha imaginado durante estes meses a unidade... Um relato simplesmente fantástico ;)

... Começou por dizer que os aparelhos e a própria cama na sua cabeça eram bem diferentes do que estava a ver... Relatou uma situação de quando esteve sedado: "eu via-me no meio de um deserto... sentia-me amarrado, preso com estacas, a minha garganta ardia de dôr e sede... O sol estava escaldante, pedia água e ninguém ouvia a minha voz ... era desesperante, o sol cada vez mais escaldante e ninguém me deitava a mão... Às vezes ouvia música celestial e havia lá um homem que de vez em quando, aparecia por trás de mim e tocava órgão... esse homem tinha uma cabeleira branca e usava uma capa... às vezes essa música era insuportável mas outras era linda e acalmava-me... eu sabia que não estava bem e algumas vezes parecia que a minha vida ia ter fim ... senti algumas vezes que estava numa nave espacial... passava do deserto para o espaço assim num segundo... adormecia e acordava sem acordar...


Tentei enquadrar este relato no ambiente da unidade: a música celestial seriam os alarmes, o órgão o ventilador que emite sons quando se carrega nas teclas,
O deserto, a sede e o sol escaldante tem a ver com a presença do tubo traqueal, a iluminação da unidade  e os quadros de hipertermia

Este relato é simplesmente daquelas coisas que nunca mais vou esquecer... 

Se alguém quiser partilhar a sua experiência Força...




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